A Geração que se Desconecta
O desenvolvimento da tecnologia e o aprimoramento dos meios de comunicação fizeram com que se discutisse o recorte de uma nova geração, 100% digital.
A geração alfa, formada pelas "crianças nascidas desde 2010", na visão do professor Joe Nellis, é composta por aqueles que já possuem pais conectados à internet, para quem a tecnologia vai funcionar como um prolongamento da forma de perceber a realidade. Wim Veen e Bem Vraking (2009) denominam essa nova geração de "homo zappiens", formada por pessoas cujo cotidiano é impactado ativamente pela tecnologia — o que acaba por provocar uma sobrecarga de informações e a falsa ideia de serem capazes de realizar várias tarefas.
Apesar dos eventuais benefícios que a hiperconectividade pode provocar, o que se tem constatado, atualmente, são diversos problemas gerados pelo uso prolongado das telas e das redes sociais.
Jonathan Haidt, autor do livro A Geração Ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais (2024), alerta para o fato de que "a hiperconectividade alterou o desenvolvimento social e neurológico dos jovens, causando privação de sono, privação social, fragmentação da atenção e vício". Além disso, ela tem causado déficit de atenção, provocando dificuldade nas crianças e adolescentes em interpretar, analisar, resumir e criticar qualquer tipo de informação recebida.
Haidt destaca, também, que as meninas são as mais impactadas por distúrbios de imagem provocados pela comparação social no Instagram, enquanto os meninos acabam se isolando pelo uso constante de videogames e pela exposição a conteúdos indesejáveis.
Como consequência, o autor sugere o controle do uso do celular e a inserção de mais atividades ao ar livre para crianças e adolescentes, objetivando "descontaminá-las" do uso desenfreado dos aparelhos digitais.
Atentos a esse debate, países de diversas partes do mundo iniciaram um movimento objetivando restringir o acesso de crianças e adolescentes às redes sociais para preservar a privacidade, a saúde mental e evitar a exposição excessiva.
Um dos primeiros países a alterar a sua legislação e impor limites de acesso foi a Austrália, que proibiu que crianças e adolescentes menores de 16 anos utilizem redes sociais. A Noruega encaminhará um projeto de lei ao parlamento para proibir o uso de redes sociais por crianças menores de 16 anos, enquanto a União Europeia, por meio da Comissão Europeia, desenvolveu um aplicativo que pode impedir o acesso a conteúdos prejudiciais na internet.
França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Itália e Reino Unido também caminham pela mesma linha e anunciaram medidas para coibir o acesso de crianças menores de 16 anos às redes sociais, impondo obrigações de controle às plataformas digitais.
O Brasil, apesar de ainda não ter uma proibição expressa, editou a Lei Federal nº 15.211, de 2025 (ECA Digital), trazendo mais proteção às crianças e adolescentes — exigindo, por exemplo, que as plataformas digitais adotem critérios eficazes para verificação da idade e vinculem as contas de menores de 16 anos ao perfil do responsável.
Essa geração 100% digital, embora tenha se formado em um contexto de ampliação do acesso à informação e de intensificação das conexões, paradoxalmente revela sinais de desconexão social, emocional e cognitiva. O uso excessivo das telas e das redes sociais tem produzido impactos relevantes no desenvolvimento de crianças e adolescentes, exigindo não apenas maior conscientização das famílias e da sociedade, mas também a atuação efetiva do Estado e das plataformas digitais na criação de mecanismos de proteção.
Nesse cenário, mais do que proibir, o desafio contemporâneo consiste em promover um uso equilibrado da tecnologia, capaz de conciliar inovação, saúde mental, convivência social e desenvolvimento saudável das novas gerações.
Cristiane Helena de Paula Lima Cabral — Mãe de duas pequenas grandes mulheres. Doutora em Direito Público Internacional pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Professora universitária.
Referências
- BORRULL, Alba Solé. O que é a geração alfa, a 1ª a ser 100% digital. BBC Brasil, 20 maio 2019.
- HAIDT, Jonathan. A Geração Ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. 2024.
- Veja quais países regulam acesso de crianças às redes sociais. CNN Brasil, 28 nov. 2024.
- TEDESCHI, Vitória. 7 países que proibiram o uso de redes sociais por menores de idade. Fast Company Brasil, 20 nov. 2025.
- BRASIL. Câmara dos Deputados. ECA Digital: mais proteção para crianças e adolescentes.